“A Hora de Decidir: Poder, Persistência, Propósito e Possibilidade nos Estudos Africanos”

O tema do 63.º Encontro Anual da Associação de Estudos Africanos (African Studies Association – ASA) surgiu dos persistentes apelos à ação lançados pelos académicos dos Estudos Africanos. Desde as primeiras décadas após a fundação da ASA, em 1957, tem sido reivindicada a introdução de mudanças estruturais; porém, mesmo tendo-se verificado mudanças assinaláveis relativamente à constituição dos seus membros, à liderança e às prioridades, a ASA — e as áreas disciplinares e interdisciplinares que representa — não superou ainda as velhas clivagens, hierarquias e práticas de exclusão que há muito a atormentam. De facto, os Estudos Africanos permanecem algo isolados, ainda que se tenham vindo a estreitar os laços epistemológicos transnacionais, com a consequente redução do fosso entre os académicos nos EUA e no continente africano. A urgência destes desafios, que é agora sentida com especial intensidade não só a pretexto do 60.º aniversário da Associação, como também devido ao crescimento dos regimes tirânicos contemporâneos e à corajosa resistência que lhes tem sido levantada — seja nas ruas de Cartum, da Monróvia, de Argel ou de Ferguson —, apresenta-se como uma oportunidade única para que os académicos dos Estudos Africanos aproveitem esta “hora de decidir” no sentido de redefinirem quem somos enquanto associação, enquanto área de estudo, enquanto académicos, ativistas e profissionais. É com este objetivo em mente que o/a convidamos a explorar os mecanismos segundo os quais os Estudos Africanos têm sido e continuam a ser um lugar de poder, persistência, propósito e possibilidade.

Uma tal iniciativa é um passo essencial para que, neste século XXI, consigamos delinear uma abordagem pluralística dos Estudos Africanos que se afaste definitivamente dos modelos provinciais e paroquiais. Propomos aos académicos que encarem o tema desta conferência não tanto como um convite para apresentarem medidas prescritivas, mas para explorarem novas possibilidades no domínio específico das suas investigações e do seu campo de estudo em geral; para perscrutarem os objetivos que historicamente os Estudos Africanos se propuseram atingir e para reimaginarem os objetivos a que se poderiam propor no presente e no futuro; e ainda para se debruçarem sobre o modo como o poder e as estruturas que este produz definem os contornos desta área de estudo, desde o desenvolvimento curricular, as formações de pós-graduação, o acesso a materiais de pesquisa, as oportunidades de publicação, o financiamento, os prémios e distinções, até ao direito fundamental à liberdade académica, incluindo o direito a viajar entre as fronteiras cada vez mais fortificadas que dividem o Norte e o Sul.

Poder e Persistência: Convidamos à apresentação de propostas que explorem as implicações do poder e da persistência das velhas estruturas conceptuais — nomeadamente a organização tripartida da história de África nas periodizações estáticas de pré-colonial/colonial/pós-colonial, ou a racialização da geografia implícita na divisão do continente em África do Norte e África Subsaariana — que ainda determinam as abordagens ao estudo de África e a imaginação popular em torno do continente, independentemente de essas estruturas terem sido alvo de constante criticismo por parte dos académicos dos Estudos Africanos. Serão igualmente bem-vindas apresentações que analisem os aspetos que sempre subjazem às agendas de investigação em Estudos Africanos, questionando, por exemplo, os motivos por que alguns temas se tornaram decisivos para este campo de estudo, ao passo que outros não conseguiram prevalecer. Sugerimos que sejam tomadas em consideração as metodologias mais influentes e as inovações ou “viragens” conceptuais que se tornaram basilares nesta área e suas disciplinas, mas que talvez precisem agora de ser revisitadas. Encorajamos ainda os académicos a refletirem sobre as repercussões do poder e da persistência das disciplinas curriculares no futuro dos Estudos Africanos, nesta época em que o financiamento dos Estudos Regionais (“Area Studies”) praticamente cessou e em que as universidades estão a consolidar a integração dos Estudos Regionais interdisciplinares em grandes programas agregadores. São igualmente bem-vindas apresentações que explorem os pontos de ligação e de conflito entre os Estudos Africanos nas disciplinas e nos programas interdisciplinares dos “Black Studies”, bem como apresentações que analisem o poder e a influência — no passado e no presente — que os principais curricula das pós-graduações em Estudos Africanos e as agências de financiamento exercem sobre o processo de definição deste campo de estudo e suas disciplinas.

Propósito: Tal como definido na declaração de princípios da ASA, o propósito subjacente à criação e atividade da Associação é claro: encorajar o intercâmbio, a produção e a divulgação do conhecimento histórico e contemporâneo acerca da África na atualidade e no passado. Mas então quais são os objetivos dos Estudos Africanos enquanto área de investigação académica? Se na época dos Estudos Regionais os Estudos Africanos se destinavam a apoiar os interesses nacionais dos EUA, quais são hoje os seus objetivos? Terão evoluído significativamente ao longo do tempo ou estamos ainda a tentar combater os velhos e desgastados ditames, estereótipos e tropos? Do outro lado do Atlântico, em África e na Europa, mas também no Médio Oriente, na Ásia e no contexto mais alargado do Oceano Índico, que diferenças se identificam nos objetivos e na produção dos Estudos Africanos? Valorizaremos em especial as apresentações que se centrem nos novos objetivos em que os académicos dos Estudos Africanos no continente africano têm investido a sua energia intelectual e os seus recursos institucionais. Convidamos ainda à apresentação de propostas que esmiúcem os “perdidos e achados” dos Estudos Africanos, no sentido de analisar o modo como esta área de estudo evoluiu, e em que medida os seus desenvolvimentos corresponderam à persecução de objetivos e intencionalidades. São igualmente bem-vindas as apresentações que esquematizem os temas e as questões que ainda necessitam de investigação mais depurada.

Possibilidade: A urgência da “hora de decidir” apela à revitalização dos Estudos Africanos e à convocação de formulações experimentais e disruptivas nos temas que estudamos. Os debates atualmente em curso acerca da relevância dos Estudos Africanos criaram o momento certo para reconfigurar os alicerces geracionais e históricos desta área de estudo. Será possível estabelecermos novos padrões para os Estudos Africanos? Como poderão eles originar uma nova visão dos Estudos Africanos com abrangência suficiente para responder aos desafios lançados pela nossa cada vez mais fraturada sociedade global? No meio desta crise global, entendida por muitos como uma época de dissidência, de que modo poderemos mobilizar os Estudos Africanos no sentido de proteger as vozes dissidentes, os discursos dissidentes e a divergência em relação à norma? Serão valorizados os trabalhos que abordem estas questões do ponto de vista das suas possibilidades. Valorizaremos também apresentações que repensem as narrativas que se encontram enraizadas numa série de disciplinas variadas, para questionar que possibilidades, que alternativas nos escaparam precisamente devido ao poder dessas narrativas enraizadas. Se abdicarmos dos registos académicos mais confortáveis, complacentes ou simplesmente em voga, torna-se possível desbravar novos caminhos para os Estudos Africanos. Por exemplo, será que a utilização de um novo léxico permite que nos desviemos da retórica e dos registos estáticos que há tanto tempo limitam as possibilidades desta área de estudo? Com este fim em vista, convidamos os académicos que trabalham sobre os novos domínios dos Estudos Africanos, fora das suas fronteiras habituais — tais como o populismo, o prazer, a individualidade, o consumo, a raça, a intimidade, a irrisão, a vida dos/das homossexuais, a nostalgia, a temporalidade, os imaginários, a precariedade, o animismo, a curadoria e a biométrica — a submeterem propostas que ajudem a exemplificar o futuro caminho dos Estudos Africanos.

Os temas da conferência também oferecem amplas oportunidades para que os académicos se debrucem sobre questões de poder, persistência, propósito e possibilidade relativamente ao passado, ao presente e ao futuro de África por outras vias que não apenas a da história intelectual e institucional dos Estudos Africanos enquanto área académica. Convidamos os académicos a refletirem ainda sobre questões de temporalidade, ditames, determinação e destino político que estão implícitas na célebre frase de Kwame Nkrumah, “Chegou a hora de decidir”, a qual sintetizou o caráter urgente da independência africana como ponto de partida, mais do que de chegada, da luta pela libertação africana.

Carina Ray, Brandeis University
Prinisha Badassy, University of Witwatersrand