Convite à Apresentação de Propostas

Encontro Anual da Associação de Estudos Africanos, 2018 (Boston, MA)

 

Diretores do Programa:

James Ogude, Universidade de Pretória – james.ogude@up.ac.za Matthew Heaton, Virginia Tech – mheaton@vt.edu

 

SER, PERTENCER E TRANSFORMAR-SE EM ÁFRICA

 

O tema da conferência anual da Associação de Estudos Africanos (AEA), em 2019, é “Ser, Pertencer e Transformar-se em África”. Ainda que África não seja, nem nunca tenha sido, homogénea ou una, a existência da AEA baseia-se na ideia de que há aspetos que distinguem “África” e os “africanos” dos outros povos e lugares do mundo, e que tais distinções merecem ser estudadas. Num mundo cada vez mais preocupado com as tensões geradas pelo localismo, o nacionalismo e o globalismo, em que diversas formas de essencialismo se encontram sob ataques existenciais (e ripostam de volta), esperamos que este tema desencadeie uma reflexão académica sobre aquilo que tem significado e que significa atualmente designar as pessoas, os lugares, os recursos, as ideias, o conhecimento, etc., como distintamente “africanos”.

 

Tal como os académicos tiveram de lidar com os efeitos conceptuais e materiais da globalização, nas últimas décadas também as várias disciplinas dos Estudos Africanos incorporaram abordagens transnacionais, internacionais e comparativas. Apesar destes esforços para relacionar África com os seus outros lugares e para enfatizar os limites difusos e as identidades intersetadas, ainda subsistem — num mundo de dinâmicas desequilibradas de poder, de grande intercâmbio de recursos e conhecimento e de constantes confrontos pela soberania, a representação e a inclusão — importantes debates, valores e consequências relacionados com aquilo que faz parte de África e com aquilo que significa ser-se “africano”. O esbatimento dos limites e a interceção de identidades não implicam necessariamente o desaparecimento de antagonismos estruturais nem a desvalorização de diferenças culturais profundas. O desafio que enfrentamos é o de encontrar formas de falar acerca de correntes culturais subnacionais e transnacionais que incluam ligações mais amplas, abarcando tanto as circunstâncias locais como os circuitos globais. Ao propormos o tema “Ser, Pertencer e Transformar-se em África”, não pretendemos obter definições essencialistas, mas sim compreender o modo como os discursos públicos e as várias disciplinas abordam, explícita ou implicitamente, quem é, o que é e onde se é distintamente “africano”, à luz destas recentes tendências.

 

Quem pertence a África? Na história do continente, a chegada e a saída de pessoas, assim como as migrações internas, são há muito reconhecidas como importantes fatores para a relação dos povos africanos entre si e com o mundo exterior. Ao longo de séculos, tais migrações fomentaram o intercâmbio de genes, de bens materiais, de culturas e de conhecimento. A longa história de intercâmbio entre África e os seus outros lugares – o Oceano Índico e os mundos do Atlântico Negro, por exemplo – pode ser o elo de ligação entre os diferentes modos

 

de ser e de pertencer. Em épocas recentes, a migração forçada ou voluntária para a Europa ou a América do Norte, bem como a transferência de bens e de ideias entres estes espaços, continuaram a moldar o relacionamento de África com o resto do mundo. Os recentes discursos acerca dos imigrantes africanos, sobretudo nos media ocidentais, têm reforçado a imagem de África enquanto epítome do incorrigível, do indizível, da miséria – de facto, do outro mundo.

Mas também colocaram em evidência a mobilidade, as viagens, o nomadismo e a flexibilidade, muito em voga na teoria crítica pós-colonial.

 

De que modo é que os discursos sobre a natureza e o significado de África limitam, favorecem ou moldam as possibilidades de os corpos humanos serem e pertencerem? Os governos africanos têm manipulado as categorias de pertença e de cidadania em prol de objetivos políticos. Na mesma medida, os movimentos sociais têm procurado desafiar ou redefinir os limites da inclusão política, exigindo não só bens materiais, como também uma participação mais alargada nas decisões ou nos princípios políticos. Conforme demonstram as atuais tentativas de restringir os direitos dos homossexuais em algumas zonas de África, esta definição dos limites nem sempre é progressiva: também pode ser restritiva e excludente, e pode afetar as relações internacionais e intergovernamentais de várias maneiras.

 

Que ideias, recursos e artefactos pertencem a África? Ao nível das instituições, das culturas, do conhecimento e das crenças, é sabido que diferentes mitologias e filosofias africanas partilham muitas vezes características fundacionais entre si, bem como com culturas não africanas. Ao longo da história, os africanos deram um importante contributo para o desenvolvimento de conhecimento científico e humanístico que é hoje, apocrifamente, atribuído ao “Ocidente” e há aspetos das culturas africanas — língua, música, práticas alimentares, religiões, recursos artísticos e know-how — que se influenciaram mutuamente e que influenciaram outras culturas não africanas através dos séculos. Músicos, artistas e realizadores de cinema produzem arte “africana” para um público cada vez mais global, ao mesmo tempo que os consumidores em África acedem a e apreciam cada vez mais as formas de arte disseminadas pela cultura de consumo global. A emergência e a utilização da tecnologia moderna e, mais recentemente, das redes sociais transformaram, a nível local e internacional, o crescimento e a disseminação das economias das artes criativas. À luz da longa história e da dinâmica contemporânea desses intercâmbios, como podemos distinguir a criatividade africana, e que vantagens específicas retiramos de tal exercício?

 

A exploração de culturas, ambientes e recursos africanos é sobejamente conhecida. Esta exploração deu origem a debates e discursos acerca dos direitos de propriedade que deveriam prevalecer: dos indivíduos, das comunidades indígenas, dos estados nacionais, da iniciativa privada, da humanidade em geral. Assim, é necessário compreender melhor o processo segundo o qual a posse de recursos, ambientes, artefactos e outros conteúdos culturais se desenvolveu e se alterou ao longo dos tempos, e como se podem resolver os conflitos em torno da propriedade. No centro destes debates está a questão de saber como é que aquilo que pertence a África pode ser protegido, preservado e usado em benefício dos povos e dos lugares africanos.

 

Convidamos os académicos a explorarem uma vasta gama de questões que permitam compreender aquilo que significou ou significa designar as pessoas, os lugares, as ideias ou as coisas como sendo africanos/as ou pertencentes a África.

 

 

Subtemas:

  1. A África Global
  2. Indústrias Extrativas
  3. Refugiados e Fronteiras
  4. Museus e Artefactos
  5. Ambiente e Conservação
  6. Etnicidade, Raça e Nacionalidade
  7. Economia, Economia Política e Empreendedorismo
  8. Práticas e Discursos de Desenvolvimento
  9. Migração, Transportes e Globalização
  10. Partidos, Política e Eleições
  11. Paz e Segurança
  12. Educação
  13. História e Arqueologia
  14. Literatura
  15. Filosofia Africana
  16. A Teorização de África
  17. Religião e Espiritualidade
  18. Performance, Música e Artes Visuais
  19. Cultura Popular e Media
  20. Saúde e Cura
  21. Mulheres, Género e Sexualidades
  22. Antropologia
  23. A África Urbana
  24. Outros Temas Específicos